terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Carta para Leila Danziger a propósito de seu mais novo livro de poemas

Querida Leila D,

É noite, Leila Danziger, 2009


li teu livro todo entre a sala de triagem e a sala de raio-x no Hospital Badim, hoje, enquanto esperava que a Ana fizesse seus exames para descobrir por que doía tanto a sua barriga. Um dia antes foi ela mesma quem me mostrou um poema seu: “Não sei o que fazer / com tantas radiografias / de seus pulmões (...) seus ossos são luz.” Não li até o final, não tive olhos, se afogaram todos e eu fingi estar com alergia ao perfume, tenho o olfato e os olhos frágeis pra essas coisas, pra poemas, perfumes, metrô, raio-x.
Fiquei pensando enquanto lia no que achei do teu Três ensaios de fala, em como é composto por tantas camadas superpostas de imagens, imagem sobre imagem, areia molhada sobre areia seca, uma melancolia funda como médium dessas figurações, todas partidas, furadas, arrebentadas. Uma melancolia capaz de abrir as coisas para além de sua mera organicidade, uma contemplação ativa das coisas mínimas: como poder dizer, como você, “encontrei uma baleia encalhada / entre um anúncio de eletrodomésticos / e algumas notícias gastas”? A baleia arrebentada, naquele seu poema “Fato bruto”, abre-se, em sua carcaça, em túmulo digno, ela mesma, para si mesma. Uma autorredenção imagética que abole aquilo que “o sol não esquece: (...) o calor de dez mil rivais”.
Leila, há algum tempo eu queria te dizer que a sua poesia me parece construir um túmulo digno para o mundo partido que você testemunha. Das tragédias familiares às históricas – tão misturadas, feito o modo como jornais, agendas, compromissos, se amontoam ao longo dos anos nos cantos das casas – presenciamos, talvez, a pequena possibilidade daquilo que Orígenes saudava na bíblia como “apocatástase”, e que Walter Benjamin atualizou na expressão “apocatástase histórica” – para o teólogo do primeiro milênio isto queria dizer a admissão de todas as almas no paraíso, inclusive as infernais, e, para o filósofo do segundo milênio, a possibilidade de uma visada sobre os fenômenos que os salva integralmente na promessa de felicidade da sociedade sem classes, isto é, aquilo que ele, o saturnino, afirmava como “a indestrutibilidade da vida suprema em todas as coisas”.
Agora, com esse teu livro, Ano Novo, que eu pretendia ler no ano novo, em Teresópolis, mas que li na espera da emergência – enquanto a Ana doava chapas, sangue  e imagens sonoras para o testemunho da saúde – fico pensando nessa promiscuidade das coisas com as datas. Se antes as coisas se abriam a nós no médium da melancolia, agora me parece que o próprio médium da melancolia que nos é dado no médium temporal mais amplo das gerações, das heranças e dos legados. Parece que, com essa disfunção temporal servindo de meio ambiente para todas as coisas, as tuas e as nossas, é a minha memória quem sofre uma disfunção, e agora “a voz de meu pai / chamando pelo nome que costuma ser o meu”. O que isso quer dizer? Leila, tive uma educação muito fundamental no marxismo, quero dizer, me apropriei das coisas e das ideias sobre o solo da militância e da teoria crítica, o que faria facilmente com que eu rejeitasse de saída uma poesia voltada para o universo da casa, do privado. Mas acontece um pequeno milagre na sua poesia: tão nominal, tão particular e tão singular, ela se converte, num passe de mágica mesmo, em intervenção geral, ampla e larga. Acontece mesmo como na imagem que abre o “Ano Novo” do livro: “Mar Vermelho sobre Praia Vermelha; / Tel Aviv sobre Copacabana.” Aquela dignidade, que você e poetas que admiro parecem trazer no verbo, se expande de dentro pra fora das coisas, para tudo aquilo que poderia vir a ser.
E é por isso que te escrevo, e que essa espécie de recensão precisa vir de dentro pra fora, do particular para o geral, de um encontro nosso, uma carta minha pra ti, para o âmbito mais irrestrito da vida das formas – e em mim são formas que te agradecem. Ana segue bem, sem dores – agora vamos cozinhar.
Um beijo
R. Zacca

L.D.

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