sexta-feira, 12 de agosto de 2016

[Tradução] O Livro de Isaías | Anne Carson

I

Isaías acordou irado.
Contra as orelhas de Isaías não mélica de melro acontecia a ira.
Deus encheu as orelhas de Isaías com agulhas.
Deus e Isaías costumavam ser amigos.
Deus e Isaías conversavam notívagos, Isaías corria para o jardim.
Conversavam sob a rameira, a noite escorria.
Da sola dos pés à cabeça de Isaías Deus fazia vibrar.
Isaías tinha amado Deus e agora esse amor se tornara mágoa.
Isaías quis um nome para a mágoa, ele a chamou de pecado.
Agora Isaías era um homem que acreditava ser uma nação.
Isaías chamou Judá a nação e condição de Judá o pecado.
Dentro de Isaías Deus viu a superfície do mundo queimar.
Isaías e Deus viam as coisas de maneira diferente, posso falar de suas ações.
Isaías se dirigiu à nação.
A fragilidade do homem! gritou Isaías.
A nação se atiçou em sua casca e dormiu de novo.
Dois bifes de carne ensanguentada redobravam em seus olhos como asas.
Como uma pintura brilhando dura a nação dormia.
Quem inventará um novo medo?
De todo modo eu inventei o pecado, pensou Isaías, passando a mão na manga.
E então, por causa de uma grande atração entre eles –
que a favor e contra Isaías lutou pelo resto de sua vida –
Deus destruiu a indiferença de Isaías.
Deus lavou o cabelo de Isaías no fogo,
Deus se fixou.
De dentro das asas de carne a nação escutou.
Você, disse Isaías.
Sem resposta.
Eu não posso te ouvir, falou de novo Isaías sob a rameira
Luz alvejante abriu a câmara da noite,
Deus chegou.
Deus esmagou Isaías como vidro contra cada orifício de sua nação.
Mentiroso! disse Deus.
Isaías coloca as mãos no casaco, ele coloca a mão no rosto.
Isaías é um homem pequeno, disse Isaías, mas não é mentiroso.
Deus fez uma pausa.
E foi assim o seu acordo.
Fragilidade dos dois lados, sem mentir.
A mulher de Isaías veio até a porta, os batentes tinham se movido.
O que foi esse barulho? disse a mulher de Isaías.
O medo do Senhor, disse Isaías.
Ele sorriu no escuro, ela voltou pra dentro.



[trad. Rafael Zacca]



sexta-feira, 5 de agosto de 2016

[Tradução] Meu coração salta se vejo | William Wordsworth

Meu coração salta se vejo
trad. Rafael Zacca


Meu coração salta se vejo
um arco-íris no céu;
era assim na vida que some;
e é agora que sou um homem;
que assim seja quando eu for velho,
ou a morte sem véu!
A Criança é pai do Homem;
e eu queria os dias fossem cacos
de afeição um a um religados.


Algumas notas sobre a tradução

a. O poema foi traduzido por transferência. Amar o Luiz Guilherme Barbosa que trabalhava esse poema me fez trabalhar esse poema. Me ocorre que a tradução seja mesmo alguma coisa de corrimento, secreção e contaminação.

b. Algumas decisões são de fôrma, outras de forma. Fôrma: mantive boa parte da estrutura original da canção, mas modifiquei alguns pares de rima, facilmente identificáveis. A consequência foi um final mais ligeiro, acelerado, o que não é de todo ruim; mas é preciso que o leitor tente ao menos uma vez ler os dois últimos versos de minha tradução na língua das baleias, com um prolongamento bastante grande das vogais. Forma: Alguns traduzem "child" por menino, e existe um problema maior do que o significado dos significantes envolvidos: em Wordsworth existe um estado perceptivo da criança, um estado autônomo, que pode se projetar confundindo os tempos, que vem por uma infestação sensível (com o arco-íris, por exemplo, nesse excesso de cores), ainda que seja insustentável (não se prolonga no tempo, daí a necessidade de sua fixação em poemas).

c. Optei por preservar o sentido religioso, por isso a transformação de "natural piety" em "afeição", e de "bound" em "religados", além da referência aos cacos. Outra opção seriam os elos, mas sonoramente nos perderíamos de Wordsworth excessivamente.

d. É muito difícil, mas é preciso alargar o português com essas outras sintaxes, sem quebrá-lo de uma só vez. É um trabalho temporal dos tradutores que se destaca de nossa linha do tempo, mas é uma missão bonita essa, a de que as línguas podem se tangenciar.

e. Todas as transformações de fôrma vieram da necessidade de preservar o verso "A Criança é pai do Homem" sem maiores transformações, por entendê-lo como centro de gravidade do poema -- inclusive historicamente, ao menos em suas traduções para o português e para o espanhol.

f. Tomei "Meu coração salta se vejo" como perna de apoio material do poema. É esse verso que orienta a musicalidade, a nova métrica e as transformações semânticas em torno dos saltos, véus, espaços vazios, etc.

g; Tentei preservar os jogos com o verbo "to be" em um novo jogo métrico, com contagem silábica para a sua aparição, ou revelação. Há nesse poema uma teoria temporal do ser. Explicito para deixar claro que traduzir é criticar, e toda tradução é uma imagem crítica do poema.

William Wordsworth
My Heart Leaps Up When I Behold'


My heart leaps up when I behold
A rainbow in the sky:
So was it when my life began;
So is it now I am a man;
So be it when I shall grow old,
Or let me die!
The Child is the father of the Man
And I could wish my days to be
Bound each to each by natural piety.