sexta-feira, 22 de abril de 2016

Gandolfi: "Insert Coin", Chiste e Infância

2 ou 3 palavras sobre "Insert Coin", de Leonardo Gandolfi
por Rafael Zacca

Na copa do mundo de 1994 eu tinha 7 anos, e abandonava algumas obsessões em prol de outras. Larguei a mamadeira tarde, e então vieram, por exemplo, os babaloos: vinte por dia, ao todo, enfiando de cinco em cinco na boca. A criança sempre pede por mais. Principalmente se a brincadeira envolve o espanto ou a vertigem. Sempre mais um susto, mais um voo, mais um terremoto. Do outro lado da rua, em frente à minha casa, além dos chicletes, eu podia jogar fliperama. As palavras “insert coin” (talvez as primeiras, em inglês, que as crianças da minha geração aprenderam) piscavam na tela, e, fossem infinitas as moedas, seria infinito o jogo.
Na linguagem também existe uma moeda corrente para um jogo infinito. Novalis percebia nisso uma coisa meio maluca ou tola, que serviu de base para o seu divertido “Monólogo”. Quando falamos ou escrevemos, não ocorre apenas uma artimanha do sentido e do insensato, como também um jogo bastante bobo. Quando uma criança apanha o manche e controla um personagem num jogo, não é apenas uma história que se desenrola (pictórica ou verbal), e, sobre isso, a mão e o olho sabem mais que a boca e o ouvido.
O poema de Gandolfi, que figura no seu mais recente Escala Richter, é um playground de jogos virtuais, onde o corpo brinca. Há muitas moedas correntes. Uma delas é em comemoração dos 15 anos dos Trapalhões: “O pai chama, mostra a data / para dizer que é também por conta dela [já que se trata do ano de nascimento do narrador] / e não só dos Trapalhões que a moeda te pertence”. 1981. Trata-se de uma traquinagem; o número aqui tem função contígua (não-abstrata, ao contrário do que ocorre na vida corrente) com as imagens, e os números em “Insert Coin” servem de aparição com a moeda dos Trapalhões. Bem como 19 de abril aparece com os nascimentos de Roberto Carlos e Manuel Bandeira, e, por isso, nos dois, bem como na primeira fotografia do Monstro do Lago Ness, ou na morte de Octavio Paz e Charles Darwin.
Todo o poema é um desdobramento chistoso de 19 de abril de 1981, data de nascimento do narrador. O chiste se torna uma espécie de engrenagem, que põe em movimento contíguo duas ou infinitas maquinarias. A Isolda que engrena o narrador entre Tristão (símbolo de amor trágico) e Roberto Carlos (aquela por trás de algumas de suas composições); Roberto Carlos que engrena seus companheiros de nascimento e morte, e a canção nunca ouvida do pai que lembra a canção “Detalhes”; a canção “Detalhes”, que traz em seu nome o centro do procedimento analógico do poema, e também os versos “E até os erros do meu português ruim / Imediatamente vai lembrar você de mim”, chistosos em si; o erro que acompanha o Aleijadinho, a frase mal ouvida de uma adolescente, e a trapalhada com a moeda; a trapalhada com a moeda que põe em movimento a identificação com os Trapalhões e a lembrança da conversa com o pai, e assim por diante.

e chega mesmo a parecer
que se Bandeira e Roberto Carlos
não fizessem aniversário hoje
você e Isolda nem estariam aqui
ou melhor, chega mesmo a parecer
que se vocês não estivessem aqui
Bandeira e Roberto Carlos
nem fariam aniversário no mesmo dia

         Chega mesmo a parecer que sem isso o poema não seria o poema. Em tudo o texto lembra o mecanismo infantil dos sonhos. “Todo o campo do chiste verbal é posto à disposição do trabalho do sonho. Não há por que nos surpreendermos com o papel desempenhado pelas palavras na formação dos sonhos. As palavras, por serem o ponto nodal de numerosas representações, podem ser consideradas como predestinadas à ambiguidade”. Para Freud, chistes possibilitam sonhos e poemas; Décio Pignatari chamava o trocadilho e os tipos de paronomásia de metáfora entre significantes. Uma espécie de metáfora superior, no trabalho da linguagem. O jogo com Leonardo Gandolfi, porém, é mais fundo. Como a criança que traz muitas fichas e, ao jogar, não apenas sabe como se dispara o mecanismo dos golpes de um personagem em um jogo de luta, como também conquista, com os anos, uma forte tendinite, assim o jogo de “Insert Coin” resulta na inflamação dos tendões que transportam os significados. Em outras palavras, a analogia da maquinaria das metáforas sofre uma inflamação. E por isso aparece, e o poema opera secretamente sob o signo da dor (começa com o café quente na calça; termina com um tombo; e em tudo o coração dói). Arremata com os seguintes versos:

isto é só uma versão, a mais recente,
do jogo dos sete erros que dedico
e ofereço aos meus defuntos prediletos
Roberto Carlos e Manuel Bandeira.

            Não é gratuito que os versos evoquem aqui a imagem do jogo dos sete erros; os chistes, se não lhes faltarem as fichas, levam aquele que joga, por meio do sonho ou do poema, com força criativa renovada, invariavelmente, aos primeiros anos da infância. Se continuássemos, teríamos de falar sobre os almanaques de férias que distraíam as crianças da década de 1980, e sobre as suas primeiras obsessões. No fim do poema, a moeda cai na fissura de um túmulo em Mariana. A infância é uma coisa histórica.


* "Insert Coin" é um poema de Leonardo Gandolfi, e pode ser encontrado em Escala Richter, editado pela 7Letras.