sexta-feira, 25 de março de 2016

Pucheu: Nihilmorfose

2 ou 3 palavras sobre Kafka Poeta, de Alberto Pucheu
por Rafael Zacca

O livro poderia se chamar nihilKafka.
A hesitação em terminar as frases -- uma característica dos ensaios, que em cada escritor precisa encontrar a sua motivação particular --, que se alongam na métrica do pensamento, é o aspecto complementar da acentuação que Pucheu faz do vazio-sem-amparos de Kafka. Em Kafka Poeta, o escritor tcheco, realçado por Pucheu como um escritor-fracasso (no sentido de que tudo está aquém em Kafka, de suas palavras à própria vida, que aparecem como porvir uma da outra, nunca completamente realizado, um porvir localizado na base de cada uma, e não no fim de seus vetores, antes nos vetores como fim), é um medium da estranheza (não apenas ele estaria só, como a experiência de sua leitura nos estranharia de nossas terras), no qual irrealizamos coisas distantes da pátria, da família, dos amigos, da beleza, como o estrangeiro de Baudelaire.
Isso com a mesma a naturalidade com que Gregor Samsa teve de lidar com sua metamorfose. Tal naturalidade converteria o livro de Pucheu num único conceito, o de nihilmorfose, se a nós nos fosse dada ainda a possibilidade de construir qualquer ponto de condensação conceitual diante de um livro que realça a impotência como um lugar, como o lugar, a partir do qual começamos -- o quê?

* o livro foi editado pela Azougue.