terça-feira, 11 de abril de 2017

Faça chegar esta carta ao Marona e Entregue este bilhete ao João Gabriel

Herói de Atari, Editora Garupa, 2017


Marona,
a primeira vez que li um livro teu (e eu cheguei tarde aos teus livros) foi o Óleo das horas dormidas, um livro dividido em tipos de sono – cujo título me desagradou à primeira vista, mas hoje acho bonito – à época só fiz associar à tua figura, mas que hoje penso ser ele uma das expressões da insônia da época. Aliás, sempre que conversamos penso ser você uma espécie de Mandelstam deste século (porque aqui estou pensando naquele ensaio, já meio batido, do Agamben em que ele lê o Mandelstam, mas é preciso que a gente por aqui fale por outros termos). Será você talvez o primeiro de nós a não recuar para fazer um poema-carta contra a ditadura-inseto, será talvez um de nós a cair por uma causa justa, travestida (e nem por isso falsa, mas justamente por isso mais autêntica, como gosta de ressaltar a Agrado de Todo sobre mi madre, do Almodóvar – “soy muy autentica”) de patologia incurável, de eterno retorno do infantil, e será por isso mesmo o nosso ato político mais bonito e mais efetivo.
O que me surpreende no Herói de atari é esse gesto de retorno pequeno ao agora, já que lá no Óleo você carregava, nessa insônia coletiva de século, o peso dos muitos, que é, como fui descobrir depois, mais ou menos como a tua poesia começou (como uma espécie de metrópole cosmopolita dos desgraçados, uma anti-times square). Retorno pequeno; não confundir com pequeno retorno. Seria fácil também fazer o retorno ao brinquedo kitsch, recorrer a um desses maravilhosos brinquedos russos de fim de século XIX – mas foi logo você quem chamou a gente pra ver essa partida de Atari. A burguesia se diverte com os grandes salões dos avôs, cheio de brinquedos em um lugar sem poeira, consultando os doutores sobre as suas alergias, e tristes, tão tristes. Já você, Marona, você prefere ser alegre e sujo, não é?

olhar para as plantas
do caminho sem pés.
não decorar nomes,
olhar as plantas
na escuridão.

não se especializar.
abraçar ingenuamente
a impossibilidade
e o terrível sofrimento
de ser um pouco de tudo
ou quase nada.

observar as pombas
sobre as poças
da última inundação.

como são sujas e alegres.

ser sujo e alegre
após a inundação.

Leonardo Marona
Marona, o seu nome, como o do Marcelo, como o do Marighella, como o das Marias, como o de Marguerite Duras (que escreveu o Hiroshima Mon Amour, sombra que paira não apenas atrás do “Hiroshima Coração”, como também por trás desse condensado Herói de Atari) começa, como você disse, com mar; penso agora não no mar de Freud, com aquele sentimento oceânico de completude, mas no mar desgraçado de nossas histórias latino-americanas, esse mar saturado de perigos. Teu livro, que começa com um “Matadouro” literário (onde seus companheiros “são simpáticos, mas é possível / também imaginá-los delatando / alguém por uma bolsa ao mérito”), e termina com uma lista de desgraças que poderiam ter te acometido até os 35 anos, não apresenta um herói, grego ou hollywoodiano, que é capaz de, pela astúcia ou pela força, vencer o perigo. É, antes, o testemunho daquele que poderia ter morrido como qualquer um de nós, e que pode morrer (e que talvez morra) a cada momento, mas cuja pequena bateria ainda sobrevive, no fim dos tempos, para legar algum testemunho do quinhão heroico que cabe a cada um dos fodidos.

tantas coisas poderiam ter acontecido
eu poderia ter caído na rua rolado
por cima de um carro morrido de amor
da fuga do amor perdido um olho
de fugir ou encontrar poderia ter sido
ou de tomar remédios ou de tédio
esse grande vilão por trás da nossa fé
poderiam ter acontecido até o fim
no metrô ou de joelhos diante de deus
com o coração espetado num garfo
quando as tesouras na mão os cutelos
sem fio veraneio na casa-fantasma (...)
mas nada aconteceu assim e por isso
é preciso dizer todo o resto (...)

João Gabriel Madeira Pontes

Marona, entregue este bilhete ao João Gabriel Madeira Pontes. Penso que a tua decisão do manifesto como crítica é acertada. O Herói de Atari é um mundo saturado de perigos, e o “silêncio de metal” do herói não é suficiente para bancar de übermensch. Penso que você pensou nisso, J., quando deixou ali, discreto, no final do título, o alerta “esta vida perigosa”. E tanto amor, polêmica, desespero e desejo pelo perigo não são mesmo marcas daquele que “alucina com coisas reais”, como exigiu o Belchior? Não é, então, a crítica, como essa tua, um delírio da obra, e não é o delírio outra coisa que não as coisas reais apresentadas em outras formas? Não te parece, então, que essa mistura que tinha, no Alucinação, de convocação, paixão, derrota e insistência (não irão nos vencer por cansaço), figura exatamente no livro do Marona, e é isso que exige, dessa vez, do crítico, uma espécie de manifesto? Uma tomada de posição? Sendo assim, como fica a situação do crítico do crítico, este tal de R. Zacca, não deveríamos interrogá-lo, neste caso, de enviar um bilhete, que termina com perguntas e não com gestos? Não deveríamos jogar carta e bilhete no lixo? Bancando de perplexo em pleno fim dos tempos pra cima de moi? Por que é que te mando então um fragmento como recado?

Com amor,
R. Zacca

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

[Tradução] O Sol de Charles Baudelaire


O Sol
[trad. Rafael Zacca]

Pelos velhos subúrbios, nos quais os casebres
abrigam em cortinas secretos prazeres
enquanto o sol cruel perfura com traçado
a cidade e a campina, o telhado e o arado,
exerço a sós a minha fantástica esgrima,
cheirando em todo canto uma chance de rima,
tombando nas palavras como nos sobrados,
e chocando por vezes com versos sonhados.

Rival da palidez, este pai sempre alerta
o verme como a rosa no campo desperta,
evapora a moléstia no verso do céu,
e ao cérebro e à colmeia ele enche de mel.
É ele que faz jovens os envelhecidos
e lhes dá a doçura dos recém-nascidos,
e comanda à lavoura a madurar e crescer
no imortal coração, que ainda quer florescer!

Quando, feito um poeta, ele desce às cidades
dignifica a sina das vulgaridades,
e irrompe feito um rei, sem ruído ou criado
em qualquer hospital ou em qualquer condado.



Le Soleil
[Charles Baudelaire]

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Carta para Leila Danziger a propósito de seu mais novo livro de poemas

Querida Leila D,

É noite, Leila Danziger, 2009


li teu livro todo entre a sala de triagem e a sala de raio-x no Hospital Badim, hoje, enquanto esperava que a Ana fizesse seus exames para descobrir por que doía tanto a sua barriga. Um dia antes foi ela mesma quem me mostrou um poema seu: “Não sei o que fazer / com tantas radiografias / de seus pulmões (...) seus ossos são luz.” Não li até o final, não tive olhos, se afogaram todos e eu fingi estar com alergia ao perfume, tenho o olfato e os olhos frágeis pra essas coisas, pra poemas, perfumes, metrô, raio-x.
Fiquei pensando enquanto lia no que achei do teu Três ensaios de fala, em como é composto por tantas camadas superpostas de imagens, imagem sobre imagem, areia molhada sobre areia seca, uma melancolia funda como médium dessas figurações, todas partidas, furadas, arrebentadas. Uma melancolia capaz de abrir as coisas para além de sua mera organicidade, uma contemplação ativa das coisas mínimas: como poder dizer, como você, “encontrei uma baleia encalhada / entre um anúncio de eletrodomésticos / e algumas notícias gastas”? A baleia arrebentada, naquele seu poema “Fato bruto”, abre-se, em sua carcaça, em túmulo digno, ela mesma, para si mesma. Uma autorredenção imagética que abole aquilo que “o sol não esquece: (...) o calor de dez mil rivais”.
Leila, há algum tempo eu queria te dizer que a sua poesia me parece construir um túmulo digno para o mundo partido que você testemunha. Das tragédias familiares às históricas – tão misturadas, feito o modo como jornais, agendas, compromissos, se amontoam ao longo dos anos nos cantos das casas – presenciamos, talvez, a pequena possibilidade daquilo que Orígenes saudava na bíblia como “apocatástase”, e que Walter Benjamin atualizou na expressão “apocatástase histórica” – para o teólogo do primeiro milênio isto queria dizer a admissão de todas as almas no paraíso, inclusive as infernais, e, para o filósofo do segundo milênio, a possibilidade de uma visada sobre os fenômenos que os salva integralmente na promessa de felicidade da sociedade sem classes, isto é, aquilo que ele, o saturnino, afirmava como “a indestrutibilidade da vida suprema em todas as coisas”.
Agora, com esse teu livro, Ano Novo, que eu pretendia ler no ano novo, em Teresópolis, mas que li na espera da emergência – enquanto a Ana doava chapas, sangue  e imagens sonoras para o testemunho da saúde – fico pensando nessa promiscuidade das coisas com as datas. Se antes as coisas se abriam a nós no médium da melancolia, agora me parece que o próprio médium da melancolia que nos é dado no médium temporal mais amplo das gerações, das heranças e dos legados. Parece que, com essa disfunção temporal servindo de meio ambiente para todas as coisas, as tuas e as nossas, é a minha memória quem sofre uma disfunção, e agora “a voz de meu pai / chamando pelo nome que costuma ser o meu”. O que isso quer dizer? Leila, tive uma educação muito fundamental no marxismo, quero dizer, me apropriei das coisas e das ideias sobre o solo da militância e da teoria crítica, o que faria facilmente com que eu rejeitasse de saída uma poesia voltada para o universo da casa, do privado. Mas acontece um pequeno milagre na sua poesia: tão nominal, tão particular e tão singular, ela se converte, num passe de mágica mesmo, em intervenção geral, ampla e larga. Acontece mesmo como na imagem que abre o “Ano Novo” do livro: “Mar Vermelho sobre Praia Vermelha; / Tel Aviv sobre Copacabana.” Aquela dignidade, que você e poetas que admiro parecem trazer no verbo, se expande de dentro pra fora das coisas, para tudo aquilo que poderia vir a ser.
E é por isso que te escrevo, e que essa espécie de recensão precisa vir de dentro pra fora, do particular para o geral, de um encontro nosso, uma carta minha pra ti, para o âmbito mais irrestrito da vida das formas – e em mim são formas que te agradecem. Ana segue bem, sem dores – agora vamos cozinhar.
Um beijo
R. Zacca

L.D.

domingo, 27 de novembro de 2016

Jorge Luís Borges | Dezessete haikus e um sonho de Kafka

Dezessete haikus -  Jorge Luís Borges
[trad. Rafael Zacca]

1

Coisas me mostraram
a montanha e a tarde.
Já se olvidaram.

2

A vasta noite
não é agora outra coisa

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

"Cu" como campo de testes em “Ocupa”, de Dimitri BR

Quatro notas sobre uso, corpo e linguagem
por Rafael Zacca






1. Que a nós não nos seja dado o uso de todo o corpo, o simples uso do corpo, testemunham as constantes investidas da primeira infância – já liberta da necessidade do bebê – contra o regramento corporal (frequentemente compreendidas sob o signo precário da ignorância). Quando postulamos, por exemplo, uma “fase anal” naqueles aproximados três anos de vida depois da chamada “fase oral”, que supostamente deveria ser superada no desenvolvimento psicossexual da pequena criatura até o seu amadurecimento genital, interditamos uma coisa tão preciosa quanto a ginástica ou a teoria. Não interditamos, simplesmente, o livre uso do cu, mas a possibilidade mesma de teste – e, portanto, de plurisignificância – prometida em cada parte corporal. Dois livros recentes se debatem com esse problema. Um deles, Corpo de festim, de Alexandre Guarineri, devolve o tabu para o centro das questões de valorização e desvalorização dos corpos e da vida, culminando no par catártico "ânus humano (.) ônus santo".[1] Por sua vez, Ocupa, de Dimitri BR, parece querer restituir o campo de testes corporal que a vida adulta na civilização pretende recalcar. E, assim como para o poeta o teste da linguagem é condição de possibilidade de sua produção ou de sua demolição de sentido, estabelecendo certa “economia” dos elementos em sua arquitetura, da mesma forma o teste anal quer constituir uma “ecologia” do corpo.[2] O poema que abre o livro, não por acaso, é intitulado “Desperdício”: “pesquisas apontam / há quem use menos / de 10% do corpo / para fazer sexo”.

2. A civilização reclama seu quinhão na sexualidade e na satisfação pulsional limitada dos ocidentais. Os sistemas pedagógicos familiares e sociais têm papel medular nesse enfraquecimento fundamental. O desenvolvimento das forças produtivas não intensificou os viventes. Conhecemos a tríade civilização-impotência-educação em nossas sociedades, e parece ser disso que trata o “Erro de português” de Oswald de Andrade: “Quando o português chegou / Debaixo duma bruta chuva / Vestiu o índio / Que pena! Fosse uma manhã de sol / O índio tinha despido / O português”. O livro de Dimitri não apenas tem uma seção inteira dedicada à “Volta às aulas” (retorno que está no cerne do motor poético de Chacal, e que revela o fio secreto entre a perspectiva de aluno presente em sua vida-obra e um livro como Seu Madruga e Eu), como também traz, na seção “Ocupa”, um poema inteiro dedicado a expor, pelo avesso, a tríade a que nos referimos; mas não somente isso, como também inaugura, desde aí, a linguagem como campo de testes privilegiado na restituição do corpo. O poema “Tucupi-Guarani” é uma rememoração do cu português a partir do repertório linguístico ameríndio: “bacurau  bacurituba / bacurubu  baiacu / brecambucu caacupê / caculé cuia cuité / cupim cupuaçu (...)”, etc. Toda a organização linguística da primeira parte do livro é realizada a partir das significações possíveis desta sílaba: cu. Trata-se, efetivamente, de um aprendizado, de uma realfabetização, que pretende ensinar um pouco mais que o uso da cavidade anal. O poema “La_ _na”, ao fazer desaparecer do título e do corpo o cu, sugerindo que o leitor complete os espaços em branco, indica não apenas a possibilidade de interação anal, como também de inserção de qualquer substantivo na ginástica linguística. Podemos fazer o teste inserindo palavras tão distintas quanto deus, guaraná, medo, frio, biscoito, etc:

todo mundo
tem _ _
ele e ela
eu e tu

quem tem _ _
tá vivo
quem tá vivo
tem _ _

quem tem _ _
tem medo?
quem tem
medo do _ _ ?


3. “Meu pai era drag” conta a história de um homem assalariado pelo Banco do Brasil, ao qual era obrigado “a ir todo dia montado”, à exceção do carnaval, quando o homem, uma vez por ano, “desmontava no Salgueiro / a drag do ano inteiro / liberdade carnaval”. Impossível não lembrar de Agrado, a travesti de Todo sobre mi madre, de Pedro Almodóvar, para quem o autêntico se identificava não com o natural, mas com o artificial. Ao listar o preço de suas operações e cirurgias, Agrado arremata: “estaba diciendo, que cuesta mucho ser auténtica, señora, y en estas cosas no hay que ser rácana, porque una es más auténtica cuanto más se parece a lo que ha soñado de sí misma.” No filme de Almodóvar, de cores muito saturadas, o coração implantado no corpo é ressaltado como fundamento de continuidade da vida. Tanto o poema de Dimitri quanto o discurso de Agrado produzem menos a valorização do meramente artificial em oposição ao natural, que a compreensão de que aquilo que é dado como natural, original ou autêntico é já o fabricado. Todos os usos do corpo são artificiais – a reeducação pelo ânus não conduz a uma verdade anterior do corpo, mais original, mas àquela verdade que concebe qualquer substância como um campo de testes. O campo de testes ameaça o que é testado: é o que testemunha Um teste de resistores, de Marília Garcia, que submete a uma bateria deles a própria estrutura narrativa, "acidentando" o eu-lírico no decorrer do livro. No acidente, no entanto, mora a chance de deformação, ou transmutação. As reinvenções do poema “Quadrilha”, de Drummond, intituladas por Dimitri “Quadrilha: três modos de jogar”, emulando diversos jogos coletivos, testemunham essa propriedade transmutável de todas as coisas por meio da linguagem.

4. O livro, e a seção que mais trabalha o significante "cu", trazem como nome o termo "ocupa". A sugestão imediata é a de que o teste do corpo tem qualquer relação com a ocupação de espaços, e, portanto, com a restituição, em alguma medida, da praça pelo público. "A rua mandou um beijo" é o complemento público das imagens drag familiares ou íntimas. O que se revela como força profanadora - isto é, como aquela força que não reconhece a autoridade da distância e quer se aproximar do sagrado - é o amor. É o próprio Ocupa que propõe a leitura como devoração do interdito e, ao mesmo tempo, como expressão desse amor (afinal, são três palavras):

                                               são três palavras
as mais bonitas
as mais ansiadas

a mais singela
a mais antiga
declaração

de entrega
de desejo
de amor

come
meu

cu



[1] Desenvolvi o assunto em crítica publicada no Outras Palavras: http://outraspalavras.net/posts/do-primeiro-choro-ao-livro-da-vida/ 

[2] Essa ideia de certa "ecologia" do corpo foi sugerida em encontro com o autor na Oficina Experimental de Poesia. Foi sugerida pelo crítico Luiz Guilherme Barbosa.